Imagine pegar os dados de aparelhos de celulares, registros de hospedagem, de transporte aéreo e terrestre, dos likes, deslikes e comentários das redes e até da movimentação econômica em uma cidade e lançar toda essa informação em um sistema? Essa “Big Data” – como são chamados grandes volumes de dados em constante crescimento – é então limpa, processada e condensada em painéis, de fácil compreensão, que resumem e explicam toda a movimentação do Turismo local. É exatamente isso que a prefeitura de Sinop acaba de comprar.
A gestão municipal publicou nesta sexta-feira (16), o extrato do contrato 02/26. Nessa que é a segunda compra do ano, a prefeitura se compromete a pagar R$ 421.800,00 por dois anos de trabalho da Sprint Dados Inova Simples – uma empresa recente, com menos de 4 anos de existência, que te sua sede em Brasília. A Sprint Dados pertence a Rayane Ruas Quadros Velasquez, uma especialista em pesquisa, planejamento e Políticas Públicas em Turismo, que nesse momento está cursando um doutorado em Turismo na Universidade de Aveiro, Portugal. A “quase doutora” em Tecnologias e Gestão de Dados é a mente por traz do sistema que a prefeitura de Sinop está contratando para entender como é o Turismo no município.
A contratação foi feita através de inexigibilidade – quando o processo de licitação é dispensado, alegando singularidade do produto ou serviço. No edital, a gestão justifica que a contratação envolve conhecimento técnico altamente especializado e que “a empresa selecionada distingue-se pela expertise comprovada em inteligência turística, pela utilização de tecnologias inovadoras e pela experiência exitosa em projetos similares em outros destinos, o que a torna insubstituível para o atendimento dos objetivos públicos pretendidos”.
Embora a aquisição feita pela prefeitura esteja dentro da norma, a gestão poderia ter optado pelo SITUR (Sistema Brasileiro de Inteligência Turística), que é uma plataforma amplamente utilizada por governos municipais e estaduais no Brasil para inteligência turística, integrando Big Data, painéis e observatórios de turismo de forma gratuita.
Que sistema é esse?
A prefeitura de Sinop está comprando da Sprint Dados o serviço de consultoria técnica especializada, na coleta e processamento de dados e elaboração de ferramenta modular de inteligência turística baseada em Big Data, via plataforma de BI (Business Intelligence), destinada ao monitoramento de indicadores estratégicos para a gestão pública, disponibilizados em um painel dinâmico. Na prática, a gestão está tentando sair do “achismo”, usando uma ampla leitura de dados condensada de uma forma que seja fácil de entender como o Turismo local se movimenta.
Com essa ferramenta a gestão municipal vai conseguir mapear fluxos turísticos e identificar perfis de visitantes, avaliar impactos econômicos diretos e indiretos da atividade, monitorar a capacidade e a ocupação da rede de hospedagem, transporte e serviços, medir o desempenho de eventos culturais e esportivos, definir estratégias para promover o turismo local e quem sabe “achar” seu grande gancho para se tornar um destino desejado – como fez Gramado, no Rio Grande do Sul, um dos poucos polos turísticos do país que não está relacionado a praia e belezas naturais.
De onde vem os dados da Big?
Entre os dados que serão analisados estão aqueles gerados pela telefonia móvel – os mais usados. Eles são obtidos A partir das operadoras de telefonia (Vivo, Claro, TIM) ou por empresas especializadas que compram/tratam esses dados. Nesse campo podem ser coletados a movimentação de aparelhos entre cidades, tempo de permanência, origem do visitante e horários de pico em um evento. Os dados não identificam pessoas, são anonimizados e agregados. O sistema de Turismo contratado também vai processar dados de hospedagem. Estes são obtidos com hotéis, pousadas, hostels, plataformas como Booking, Airbnb e no Cadastur/Ministério do Turismo.
Na sequência vem os dados de transporte: Aeroporto, Rodoviária, companhias aéreas e de ônibus, ANAC e ANTT. Os dados digitais e redes sociais também compõem o sistema. Ferramentas de social listening e Web scraping vão vasculhar Instagram, Facebook, Google Maps, TripAdvisor e sites de avaliação e busca para catalogar o que esses turistas falam de Sinop, de determinado evento ou ponto turístico. No fim estão os dados administrativos e públicos, que vem do IBGE, Datasus, Receita Federal e Ministério do Turismo. Daqui saem as informações sobre empregos formais no turismo, arrecadação, cadastro de empresas e eventos licenciados.
O “pacote” adquirido pela prefeitura ainda inclui levantamento de informações onde a Big Data não alcança. Nesse caso é preciso fazer pesquisa de campo. Questionários digitais (QR Code), entrevistas em eventos e totens interativos são mecanismos para fazer essa avaliação qualitativa dos atrativos turísticos.
Uma vez coletados esses dados passam por um tratamento e limpeza, são anonimizados e agregados. As informações são cruzadas entre as bases, gerando um painel de leitura – geralmente com infográficos.
E o que a prefeitura vai fazer com essa informação? Basicamente: políticas públicas. A gestão pretende usar essas informações para determinar as ações que fará em prol (ou não) do turismo.
No edital a gestão municipal afirma que essa plataforma de inteligência turística possibilitará o alinhamento às boas práticas nacionais e internacionais de governança, ampliar a visibilidade do município, fomentar parcerias, consolidar a imagem da cidade como destino inovador e competitivo e, por fim, dar transparência no processo. “Sinop encontra-se em processo de consolidação como polo de turismo estadual, em virtude de sua localização estratégica no norte do Estado, de sua crescente infraestrutura de serviços, das belezas naturais vinculadas à região amazônica e da realização de eventos culturais e econômicos de grande relevância. Nesse cenário, a atividade turística desponta como vetor essencial para a diversificação da economia local, geração de emprego, fortalecimento da identidade cultural e atração de investimentos”, relatou a gestão na justificativa da contratação.
Os serviços são descritos em horas de trabalho. Nesse intervalo de 2 anos de contrato a prefeitura está comprando 1140 horas – a um preço de R$ 370,00 a hora.