A Sema (Secretaria Estadual de Meio Ambiente), emitiu na última sexta-feira (1), a Licença de Instalação para o aterro sanitário da Sanorte, no município de Sinop. O documento autoriza o início das obras do complexo que terá capacidade para receber 200 toneladas de lixo por dia. Sinop produz cerca de 125 toneladas de resíduos por dia.
Segundo a engenheira ambiental da Sanorte e responsável técnica pelo projeto do aterro, Renata Grassel, as obras iniciam imediatamente. A empresa já adquiriu as máquinas que irão operar no aterro e utilizará parte da equipe da unidade de Sorriso para fazer essa etapa da obra. Nessa fase, explica Renata, será executada a base do aterro em uma área com capacidade para comportar os primeiros 3 anos de operação. “Também instalaremos o sistema de tratamento dos resíduos líquidos [chorume], a sede administrativa e o cercamento de toda a área do aterro, inclusive com o plantio da cortina verde [eucaliptos]”, explicou Renata.
O aterro será construído em uma área de 101 hectares, adquirida pela empresa próximo a MT-140, entre os municípios de Sinop e Santa Carmem. Pouco mais de um terço da propriedade, hoje utilizada para agricultura, será destinada ao aterramento dos resíduos. O projeto da Sanorte é instalar um aterro sanitário para resíduos classe IIA e IIB (não perigosos). O aterro terá capacidade para atender 8 municípios da região, dos quais 5 já são atendidos pela empresa com sua unidade de Primaverinha, distrito de Sorriso.
Durante a fase de licenciamento ambiental, uma equipe técnica multidisciplinar, composta por 12 especialistas, realizou levantamentos na área, apurando os dados sobre o meio físico (solo), biológico (plantas, animais), e socioeconômico. O grupo registrou a presença de 58 espécies de mamíferos, 51 de répteis e anfíbios, 132 de aves e 45 espécies de peixes, além de insetos.
O aterro sanitário de Sinop contará com 19 programas de monitoramento. Segundo Renata, esses programas começam agora e a maior parte deles existirá durante toda a atividade do empreendimento. Na próxima sexta-feira (8), uma equipe de biólogos começa um novo levantamento no local para apurar se houve alteração nesse período de quase 2 anos – quando foi realizado o processo de licenciamento ambiental. “Também nessa fase a Sanorte terá que fazer as compensações pelos danos ambientais, inerentes a atividade. A regra é que essa compensação seja feita em unidades de conservação. Cabe a Sema indicar à empresa onde essa compensação deve ser feita”, pontuou a engenheira, preanunciando um novo investimento em uma área de conservação que pode ser em Sinop.
A projeção é de que a obra física fique pronta dentro de 60 ou 90 dias – prazo que oscila em função das condições climáticas, visto que parte importante da implantação é o deslocamento de terra para formação do aterro. A partir disso a Sanorte apresenta seus relatórios para Sema, demonstrando o cumprimento das condicionantes existentes na Licença Prévia. A partir disso cabe ao órgão ambiental expedir a Licença de Operação, que autoriza o início das atividades.
Quando o aterro local estiver em operação, Sinop vai encurtar em 80 km a sua logística para destinação final dos resíduos. Atualmente o município gasta com a coleta (domicílio por domicílio), o transbordo, o transporte até o aterro de Primaverinha e a destinação final – que é o custo que o aterro cobra para receber cada tonelada de lixo. Segundo Renata, o valor da destinação final não deve mudar, mas o município conseguirá economizar com o transporte desses resíduos.
O aterro de Sinop foi projetado para ter uma vida útil de 30 anos. Ao longo desse tempo a Sanorte estima que investirá R$ 47 milhões nesse complexo para destinação final do lixo.
Como funciona um aterro?
O processo de aterramento do lixo começa com a escavação do solo. Na unidade da Sanorte em Sorriso, são 4 metros de profundidade a partir do nível normal do terreno. A implantação da estrutura é feita de forma gradual, de acordo com a demanda de resíduos que dão entrada no aterro. Ou seja, não se trata de abrir uma grande vala e despejar lixo nela.
Após a primeira escavação, o solo recebe uma camada com 50 cm de espessura de argila e cascalho. Esse material é densamente compactado e funciona como a primeira impermeabilização do solo. Sobre a argila compactada é estendida uma geomembrana, uma espécie de lona de alta resistência, com 1,5 mm de espessura, soldadas em suas emendas. Sobre a geomembrana é colocada mais uma camada de argila compactada, idêntica a anterior. “Isso dobra a capacidade de impermeabilização do aterro e evita que a lona se rompa”, revela Renata.
Com a “vala” pronta, o lixo já pode ser depositado. Os resíduos que chegam em carretas fechadas são espalhados e compactados por um trator de esteira. O equipamento pesado rasga as embalagens, otimizando a disposição do lixo no aterro. Quando a camada de lixo compactado atinge 3,5 metros de altura, uma carga de terra é jogada por cima e compactada.
Isso faz com que não haja lixo constantemente exposto. Segundo Renata, essa é a razão pela qual não há urubus no aterro de Sorriso. “O que temos aqui são garças, que são aves migratórias bastante úteis para nós. Elas se alimentam das larvas das moscas que estão no lixo, evitando a proliferação desses insetos”, ensina Renata.
O almoço das garças é “fast-food”. Assim que o lixo é esparramado para compactação, a revoada de pássaros ataca a carga. Instantes depois o resíduo é compactado e coberto por terra.
Cada camada de lixo compactado coberto com terra é chamada de talude. A primeira camada atinge o nível normal do terreno. A partir disso, os resíduos começam a ser empilhados, em um formato similar a uma pirâmide. No aterro de Sorriso são 6 camadas com 4 metros de altura cada, intercalando lixo e terra. Quando a última camada é concluída, a área é revestida com grama, o que evita erosões e diminui a infiltração da água das chuvas no lixo.
Todo o aterro tem uma ampla rede de drenagem para a água das chuvas. As aguas são uma das principais preocupações em um aterro, pois podem comprometer a estabilidade do solo e do maciço (nome dado ao lixo compactado).
Embaixo da terra, o lixo começa seu processo de decomposição. Bactérias se alimentam dos resíduos, gerando gás metano e o chorume, que fica retido nas camadas de impermeabilização. Para retirar o gás e o chorume, o aterro conta com uma rede interna de drenagem. São dutos feitos com pedra em meio a camada de lixo, repetidos em cada um dos taludes. A cada 30 metros, esses dutos são conectados a uma torre de ferro armado e pedras, que vão até o topo do aterro. Com a gravidade, o chorume escorre pelos dutos e é drenado do restante do lixo. Esse líquido é recolhido e encaminhado para o tratamento, em lagoas impermeabilizadas. O chorume passa por 7 etapas diferentes de tratamento, biológicos e químicos, até estar pronto para ser devolvido ao meio ambiente. Parte da água evapora pela ação do sol, o que funciona muito bem no Mato Grosso, que tem forte insolação. O restante do resíduo líquido pode ser diluído e descartado em um córrego, sem poluí-lo. O lodo, que é a parte sólida, é depositado no aterro.
Pelas torres conectadas ao sistema de drenagem do chorume escoa o metano. O gás sai do subsolo em tubos de concreto, de forma constante, onde é queimado. A queima do gás é importante para promover a quebra das moléculas, reduzindo assim o potencial poluente do metano.
Até o momento a Sanorte não tem um aproveitamento “comercial” desse metano. Aterros de maior porte, com um volume superior de gás gerado pelo lixo, costumam utilizar para geração de energia.
Estes dispositivos instalados no aterro sanitário são o que diferenciam a estrutura de um lixão. Na prática, o sistema de aterramento não gera contaminação do solo e das águas, promove o tratamento do chorume e a canalização gases, evitando incêndios e não deixa lixo a céu aberto. Sem resíduo exposto, diminui a proliferação de animais – de urubus a mosquitos – e, principalmente, o cheiro.