São raras as entrevistas que Bonner concedeu desde que substituiu o apresentador Cid Moreira no JN. Era abril de 1996. Três anos depois, ele acumularia a apresentação do telejornal com o cargo de editor-chefe do jornal. O programa registrava então audiência superior a 40 pontos no Ibope. Em média, mais de 60% dos televisores ligados estavam sintonizados na atração.
Hoje, o jornal criado em 1969 por Armando Nogueira conhece números mais modestos. Na última sexta-feira, registrou 26,8 pontos de audiência na Grande São Paulo, mantendo a atenção de pouco menos de 40% dos televisores ligados, o chamado share. A audiência média do jornal em 2025 é de 22 pontos, com 37% de share em São Paulo.
Pode parecer uma queda. E é. Esse número inclui toda a audiência, inclusive a das plataformas de streaming, como o Globoplay, onde hoje é possível assistir ao telejornal. Ainda assim, o produto mantém sua relevância. O jornal é visto por cerca de 30 milhões de brasileiros todos os dias. “É o mais importante jornal do mundo democrático. Não há nada semelhante nos outros países”, disse o diretor de Jornalismo da Rede Globo, Ricardo Villela.

E o que Bonner pretende fazer agora? Ele quer ver os filhos, ter tempo para visitar dois deles que vivem e trabalham na França e que ele não vê desde março. “Esse é um dos maiores motivos, o fato de que eu tenho dois filhos hoje morando e trabalhando fora do Brasil. E vê-los é muito difícil para mim. É muito de ligação, de celular.”
Bonner quer voltar ao Morumbi e ver o São Paulo jogar, o que não faz há mais de 15 anos, quer ainda cuidar de seus carros, enfim, aproveitar um pouco a vida enquanto ainda tem saúde. “Eu morro de medo de quando eu realmente parar de ter saúde para aproveitar.” Deixa só a bancada do JN, mas não a emissora, como afirmou. Não será, pois, um novo Galvão Bueno ou Fausto Silva.
Deve ainda participar de coberturas especiais, além de apresentar o Globo Repórter, um dos poucos jornalísticos da emissora no qual ele ainda não trabalhou desde que chegou à Globo, em 1986. Na primeira década, apresentou praticamente todos os programas jornalísticos da empresa – até o Globo Rural – antes de chegar à mais importante das bancadas.
Ali conviveu com as transformações do programa, desde a decisão de dedicar quase a metade do noticiário à morte do cantor Renato Russo, em 1996 – decisão tomada depois de ele convencer sua colega de bancada, a jornalista Lillian Witte Fibe, sobre a importância do personagem cantando um trecho de Faroeste Caboclo – passando pelo ataque às torres gêmeas, eleições presidenciais, conclaves e a pandemia de covid-19.
Com ele, pela primeira vez, o telejornal teve uma mulher como titular da bancada: Lillian Witte Fibe. Depois, ele dividiria a bancada com outras três: Fátima Bernardes, Patrícia Poeta e Renata Vasconcellos. Também quebrou o imobilismo do apresentador sentado, em plano fechado, durante a leitura das notícias. Levantou dela e passou a se mover pelo estúdio. A linguagem ficou mais coloquial.
Mas foi preciso que o Sars-Cov-2 ameaçasse as vidas de milhões de pessoas mundo afora para que Bonner, pela primeira vez, falasse de improviso, sem script, ao vivo, ao dizer que ali estava “esgrimando com loucos e irresponsáveis”. “E tem gente que faz isso com cargo público”, desabafou, antes de concluir: “Nós não vamos desistir”.

O “nós” de Bonner incluía os jornalistas, em um momento em que os principais jornais do País, inclusive o Estadão, uniram-se para garantir aos leitores números confiáveis sobre os casos e mortes na pandemia. O que antes se resumia a apurar, depurar e organizar as notícias do dia se tornou um exercício de desmentir o que circula diariamente em redes sociais.
Na tarde desta segunda-feira, Bonner afirmou: “Sim, esse foi o momento mais dramático da minha carreira”. Bonner pediu desculpas à direção da empresa pelo desabafo no jornal. E o episódio nunca mais se repetiu. “O Jornal Nacional é muito maior do que o que eu penso ou defendo. Ele não me pertence. Eu digo isso para os acionistas. O jornal não pertence aos acionistas da Globo. Ele é um patrimônio nacional. Ele é muito maior do que qualquer indivíduo. Então, o que eu penso, ou deixo de pensar, não é assunto de JN.”
Foi na pandemia que o processo de exaustão de Bonner atingiu o limite que o fez pensar: era preciso parar. “Ela afetou o planeta inteiro, mas, particularmente para quem é jornalista, foi algo especialmente difícil de ler hoje, porque, no caso, nós não tínhamos como não estar aqui (no estúdio). Só que aquilo se deu particularmente para mim num momento em que eu já vinha de muitos anos acumulando essas funções, com uma exaustão louca.”
Bonner viveu os tempos em que os jornalistas, com o término da ditadura militar, não eram mais presos, espancados ou até mortos. Tinha-se legitimidade para entrar em uma comunidade carente sem o risco de ser assassinado como Tim Lopes.
Era um tempo que o Jornal Nacional podia ser apresentado ao vivo, como em 2010, durante o projeto Caravana JN. O apresentador podia ficar em meio ao público sem que ninguém o xingasse ou o cobrasse por alguma notícia ou entrevista. Tudo isso ficou no passado.
“A novidade dos tempos de hoje é que o jornalismo vem sendo atacado”, disse Ricardo Villela. “Grupos políticos visam desacreditá-lo para instalar no lugar realidades paralelas. Ficou muito importante que veículos como os nossos, profissionais, demonstrem cotidianamente quais são os nossos processos, como a gente toma decisões, o que é uma checagem, quando se usa fonte em off, por que você deixa de dar determinada notícia, que você só publica o que estiver devidamente apurado e checado, coisas que muita gente não faz na internet“.
Para Bonner, a certeza de que tudo mudara veio ainda com um drama pessoal: falsários usaram o nome de um de seus filhos para tentar receber o auxílio emergencial em 2020, em uma armação feita para atingir o apresentador e, por extensão, a própria Rede Globo. Durante outra entrevista a Bial, concedida em maio de 2020, no começo da pandemia, Bonner, ainda sem barba, confessava que sua quarentena começara antes de todos.
Na última cobertura ao vivo, na rua, direto da Praça de São Pedro, no Vaticano, experimentou o apoio de brasileiros. Ouviu gritos de “Brasil” de centenas de peregrinos que esperavam a eleição do papa Leão XIV. Uma cena muito diferente da que se acostumou por aqui.
A polarização fizera sua presença em lugares públicos se transformar em um convite a constrangimentos, hostilidade e humilhações. “Eu sou o jornalismo da Globo, eu sou a Globo, eu sou a mídia, eu simbolizo muitas coisas”, desabafou então ao colega. E, mesmo assim, nesses anos todos, Bonner nunca deixou de buscar o tom exato para apresentar uma notícia. Passou a fazer pausas. E permitiu-se respirar.