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Chamado da resistência

Oficial do Exército de MT se insurgiu contra golpe de 1964, revela documento

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Oficial do Exército de MT se insurgiu contra golpe de 1964, revela documento
? Foto: Foto: Reprodução

Em uma manhã de 1971, Leonardo Slhessarenko disse a sua então esposa, Serys, que acreditava que não voltaria para a casa ao fim do dia. A pressão sobre ambos já atingira o ponto de não retorno: sua casa já havia sido invadida duas vezes; livros, destruídos; poltronas, rasgadas.

Comunista de apelido em sua turma da Academia Militar das Agulhas Negras, Leonardo se insurgiu contra o golpe militar de 1964 e fortaleceu sua trajetória de crítica interna à instituição. Em dezembro daquele ano, foi preso em Cruz Alta, após a instauração de inquérito policial militar para a investigação de “atividades subversivas”. Em 1965, foi transferido para Cuiabá (MT) como punição por seu posicionamento ideológico.

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Entre 1965 e 1971, foi um crítico do regime de exceção. Por isso, naquela manhã de 1971 sugeriu que talvez não voltasse para casa à noite em razão de possível prisão. Serys, então grávida de Larissa, a terceira filha do casal —depois de Natasha e Alexandre—, disse que era o caso de ele, então, fugir. Levar armas e se juntar a Carlos Lamarca na Bahia.

O dilema existencial estava montado: pegar em armas por uma causa pela qual lutava diariamente ou se calar e construir a família junto a sua esposa.

Acabou voltando no fim do dia e tendo mais um filho no ano seguinte, Leonardo Filho. Por outro lado, nunca aceitou se calar diante das barbaridades em curso, custasse o que fosse.

E custou muito. Em 1978, foi obrigado a se retirar do Exército. Sem poder arcar com os custos de um autoexílio no exterior, não saiu do Brasil. Dobrou, então, a aposta na educação e ampliou suas competências na Universidade Federal de Mato Grosso, que ajudou a fundar com outros colegas em 1970.

No início da década de 1980, fundou o NPE (Núcleo de Pesquisas Econômicas), que deu origem ao curso de Economia da UFMT. O núcleo, hoje chamado de NuPES, fazia pesquisas de ponta, inclusive sobre o custo de vida na baixada cuiabana. Também começou as pesquisas de opinião pública no estado, por puro hobby, e trabalhou como coordenador regional da Sudeco (Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste).

Em suas aulas na universidade, levava sempre jornais debaixo dos braços e começava o falatório discutindo as notícias com os alunos. Esta Folha, aliás, sempre lhe foi leitura obrigatória e cativa. Leitor do jornal há mais de 70 anos, era fã em especial de Elio Gaspari, de quem conhecia a obra completa sobre a ditadura militar.

Durante 13 anos, acompanhou diariamente o Diário Oficial da União para ver se seu processo de anistia política pelas perseguições ideológica e material que sofreu durante a ditadura já havia sido julgado. Em maio de 2024, o dia chegou: Leonardo tornou-se anistiado político. Na ocasião, fez um discurso para celebrar a conquista: “A vida dá altos e baixos, mas a luta tem que ser permanente, e o importante neste momento é salvar a democracia no mundo —porque ela está periclitando”.

Leonardo Slhessarenko nasceu em Passo Fundo (RS) no dia 12 de novembro de 1938, filho de imigrantes ucranianos, e morreu em Cuiabá no dia 3 de março, aos 87 anos, deixando quatro filhos, seis netos e esperando o primeiro bisneto.

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