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Caso Armazém Caage

Figurão da advocacia se oferece para defender produtores que levaram um golpe em Cláudia

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Figurão da advocacia se oferece para defender produtores que levaram um golpe em Cláudia
? Foto: Foto: Divulgação

O advogado e ex-deputado federal pelo PT, João Paulo Cunha, por vezes tido como um dos conselheiros do presidente da República Luis Inácio Lula da Silva, esteve na tarde desta quinta-feira (26), na pequena cidade de Cláudia, no interior do Mato Grosso. Em uma reunião realizada no Sindicato Rural da cidade, Cunha e sua equipe ofereceram sua assessoria advocatícia a um grupo de pessoas que foram lesadas por Eleandro Beraldo e Ana Paula Carolo, proprietários de terras e de armazéns que “desapareceram” com grãos estocados, deixando um prejuízo estimado em R$ 300 milhões. O “golpe” lesou pelo menos 55 pessoas, que tinham grãos depositados nos armazéns da Caage e muitos outros que tinham negócios pouco formais, em dinheiro, com Beraldo.

O “Caso Caage”, como está sendo chamado, chegou até Cunha por intermédio do ex-presidente da Assembleia Legislativa, José Geraldo Riva. Em novembro do ano passado um grupo de credores procurou Riva, que através de seus contatos mobilizou Cunha. Na reunião dessa tarde, o advogado disse que a situação dos credores não é fácil, que não há garantias de sucesso, mas que ele está disposto a mobilizar seu escritório de advocacia para tentar sensibilizar juízes, promotores e até a Receita Federal para tentar reaver o dinheiro perdido. “Esse processo está em uma situação lamentável. São dezenas de proprietários rurais fraudados, golpeados em seus direitos e patrimônios, que até agora não teve uma solução. Nossa ideia é ajudar os advogados que já estão nas causas e os produtores a encontrar uma saída que seja para resolver. Ressarcir o dano que foi provocado”, declarou Cunha. “Vamos usar o que já foi feito, encontrar novos caminhos que estamos estudando para fazer com que esse assunto tenha repercussão”, completou.

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Cunha pediu aos presentes que assinem uma procuração ao seu escritório. O ideal é que o máximo de pessoas ingressem nessa causa. A partir disso ele se comprometeu a fazer uma prospecção no assunto afim de identificar uma saída. Caso sua equipe aponte uma medida eficaz, então ele apresentará uma proposta para defender esses credores. “Hoje eu andei aqui em Cláudia e ouvi de mais de uma pessoa que a cidade perdeu muito sua capacidade econômica com esse golpe. Alguns proprietários tem um certo receio, por medo de pressão dessas pessoas, que são poderosas. Então a partir de agora eu digo que a responsabilidade desse processo é minha. Se alguém quiser fazer pressão, mandar recado ou assustar, que fale comigo”, desafiou o advogado. “Estamos falando de um conjunto de pessoas físicas e jurídicas, que fizeram uma operação estranha e que precisam ser investigadas. O fato é que muitas pessoas de Cláudia foram lesadas. Perderam seus grãos, seu dinheiro, suas propriedades e até sua dignidade”, emendou Cunha.

Agora a equipe espera a decisão dessas pessoas lesadas nos próximos dias. A ideia é que haja um bom volume de procurações, para que o caso ganhe vulto – embora cada ação será tratada de forma individualizada.

Do dia para noite um armazém foi fechado e seu dono, um dos empresários mais prestigiados de Cláudia, deixou a cidade. Para trás ficaram mais de 55 pessoas, entre produtores rurais, profissionais liberais, empregados e até o padre, sem saber como iriam receber os grãos ou o dinheiro que o empresário estava devendo.

O caso aconteceu em agosto de 2023. Eleandro Beraldo era dono de terras e sócio proprietário de um grupo formado pela Caage Armazéns Gerais, Agropecuária Santa Ltda e Beraldo Agropecuária. Beraldo era um empresário “forte” no município. Vindo de Primavera do Leste, ele adquiriu uma porção de terra de 40 mil hectares no Norte de Mato Grosso, dos quais 4 mil hectares eram de lavoura, onde plantava soja, milho e parte um reflorestamento de eucalipto. Beraldo ainda contava com um armazém em Cláudia e outro em União do Sul, além de imóveis urbanos e outros bens.

Desde o ano de 2007 vários produtores rurais da região, corretores de grãos e empresários locais faziam negócios com Beraldo. Ele era conhecido por “pagar bem”: comprava grãos por preços melhores que os ofertados pelas tradings e também ofertava juros, na faixa de 5%, para os produtores que deixassem sua colheita para “girar” o armazém. O empresário tinha fama de honrar com seus compromissos financeiros.

No dia 5 de agosto de 2023, um dos produtores que tinha valores a receber pelos grãos que negociou com a Caage, foi até o armazém, mas não conseguiu o dinheiro. Essa teria sido a primeira conta negada por Beraldo. O “normal” era ele prorrogar esse empréstimo e acrescentar mais juros. Mas dessa vez o empresário apenas disse que pagaria no dia 30 de agosto. “Ele era muito rico, muito antigo na cidade, tinha muitos bens. Ninguém pensava que ele iria deixar de pagar. Todo mundo achava que era uma questão de momento, de ajustar uma dívida na frente da outra”, disse um dos credores entrevistados pelo GC Notícias.

A notícia correu pela pequena cidade e outras pessoas tentaram resgatar suas dívidas. Nesse momento, profissionais liberais de Claudia, como barbeiros e contadores já faziam negócios com Beraldo, emprestando dinheiro a juros através de contratos de soja verde. No dia 16 de agosto, o encarregado do armazém chega para trabalhar e se depara com o local fechado. O mesmo acontece com o escritório de negócios da empresa. Desde então, ninguém mais viu Beraldo na cidade.

No dia 31 de agosto, Beraldo compra um espaço em um site de notícias de Sinop para publicar uma Nota de Esclarecimento, onde informa que suspendeu suas atividades comerciais em razão de “maus negócios, juros abusivos e oscilação de mercado”. No texto assinado por Beraldo, o empresário afirma que está trabalhando para liquidar seu patrimônio e assim saldar as dívidas, frisando que seus bens são suficientes para pagar todas as pendências financeiras.

A Polícia Judiciária Civil registrou o depoimento de 55 pessoas que foram lesadas financeiramente por Beraldo. O produtor rural e ex-prefeito de Claudia, Vilmar Giachini, foi um deles. Giachini alega 18 mil sacas de soja e 200 mil sacas de milho foram negociadas com a Caage antes do grupo fechar. “Esse produto desapareceu e o valor não foi pago. Para onde foi o grão?”, questionou Giachini.

O prejuízo estimado por Giachini é de R$ 14 milhões. Há produtores que alegam ter prejuízos acima dos R$ 30 milhões. O maior volume de credores, no entanto, é referente a pequenas negociações. Nem mesmo o padre da cidade escapou. Dois meses antes, em uma festa da paróquia, foi realizado um leilão, para levantar fundos para igreja católica local. Vários produtores fizeram seus lances, em grãos, doando algumas sacas para a paróquia. Esses grãos acabaram sendo “guardados” no Armazém da Caage, até serem vendidos. O armazém fechou antes de pagar pelos grãos da igreja. “Esse caso [o fim repentino das operações da Caage] gerou um impacto econômico local. Muita gente perdeu. Aqueles que perderam menos talvez tenham sentido mais, porque eram financeiramente mais ‘fracos’. Mas sim, a cidade toda sentiu”, declarou a presidente do Sindicato Rural de Claudia, Maria Dalice Ferreira.

Na reunião desta tarde, outras pessoas relataram seus prejuízos. Leandro Hart, morador de Cláudia, sofreu um AVC, ficando com metade do corpo paralisado. Sem condições de trabalhar, vendeu caminhão, casa e carro para colocar dinheiro à juros. Desde 2020 ele fazia negócios em soja verde com Beraldo. “Ele era meu amigo, de dentro de casa. Deu golpe em todo mundo. O que ele levou era tudo que eu tinha. Minha vida inteirinha está na mão desse senhor”, revelou Leandro.

Hoje ele trabalha na prefeitura, em um emprego quase “caridoso” arranjado para ele se manter. “Eles têm capital para pagar todo mundo e sobra. São 4 ou 5 empresários que estão dando um golpe na cidade”, acusou.

 

O que aconteceu depois do sumiço?

Assim que a Caage paralisou suas atividades, quem tinha negócios a receber com Beraldo tratou de tentar executar as garantias. Começou uma corrida de credores e advogados atrás dos bens do empresário. Enquanto isso, os representantes de Beraldo tentavam implementar uma Recuperação Judicial no grupo Caage. O pedido foi formulado pelo escritório ERS (Euclides Ribeiro Santos) Advocacia, que informou um montante de dívidas superior a R$ 450 milhões. O balancete da empresa que foi apresentado, referente a julho de 2023, já apontava um “rombo” financeiro de R$ 257 milhões.

O pedido de RJ foi indeferido pela juíza da 4ª Vara Cível de Sinop, Giovana Pasqual de Mello em dezembro de 2023. A magistrada apontou que a documentação apresentada foi insuficiente para comprovar a crise financeira ou a viabilidade da recuperação, ventilando uma suspeita de fraude no processo.

Por parte dos credores, a esperança era de que apesar do grande volume financeiro das dívidas, o patrimônio de Beraldo era grande. Foi quando os advogados começaram a descobrir que os bens mais vultuosos de Beraldo, como a terra e os armazéns, já não pertenciam ao empresário.

Uma parte significativa da dívida é referente a um empréstimo, contraído junto a um fundo de investimentos do Rio de Janeiro, que acabou sendo atrelado as propriedades rurais. Em julho de 2022, Beraldo pegou R$ 100 milhões junto a H. Commcor Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários. O dinheiro foi transmitido em duas séries: R$ 35 milhões na primeira e R$ 65 milhões na segunda. Beraldo iniciaria a amortização da dívida em junho de 2023, sendo que a 1ª série em pagamentos mensais e a 2ª série em pagamentos semestrais. O vencimento final da dívida era maio de 2027. Os juros eram de CDI mais alíquotas que variavam de 7,5% a 11% ao ano.

Todas as informações sobre esse empréstimo estão no relatório de auditoria independente da Reit Securitizadora S.A, administradora dos “recursos separados” de Beraldo, uma espécie de monitora do empréstimo em favor do fundo. No primeiro laudo, em abril de 2023, os técnicos da Reit não apontaram nenhuma anormalidade.

Seis meses depois, em outubro de 2023, a Reit convocou uma assembleia entre os rentistas do fundo onde deliberou pela antecipação do vencimento das Cédulas de Produtor Rural apresentadas de Beraldo. O argumento foi de que a atividade comercial foi interrompida por mais de 30 dias, houve aresto de bens que estavam na garantia, dívidas constatadas de mais de R$ 11 milhões e descumprimentos de ordens judiciais com valores acima de R$ 2 milhões. Em suma, o barco de Beraldo estava afundando e a recomendação ao Fundo era para resgatar as garantias. E foi o que aconteceu.

Enquanto a Faria Lima tomava suas decisões, outro tradicional empresário da cidade de Claudia aparecia na cena. Lenoir Bachinski, fundador da Tigre Investimentos, começa a propor acordos com credores de Beraldo. As propostas cobrem até 40% das dívidas e Lenoir oferece alguns imóveis para fazer a quitação.

O GC Notícias entrou em contato com Lenoir através do seu telefone, mas o empresário não respondeu. Informações colhidas junto à vários credores de Beraldo, dão conta que as propostas são financeiramente ruins, embora alguns tenham aceitado, apostando em “perder menos”. 

Sandro Luis dos Santos, corretor de grãos que esteve na reunião e também um dos lesados, diz que as pessoas aceitaram os acordos por desespero. “Eu não aceito uma dívida ser paga por 10% do que foi me roubado, ainda mais com terrenos superfaturados. Não é uma porcentagem justa”, comentou

Leonildo Severo, advogado que representa dois clientes que tinha negócios com Beraldo, disse que apesar da falta de solução aparente, os acordos propostos de 40% do valor não estimularam os credores que representa. “Meus clientes entregaram milho, não conseguiram fazer os contratos de venda, tem as notas de remessa e romaneios. Aguardamos a recuperação judicial, que não aconteceu. Não entramos com uma ação ainda, por uma questão de custos e uma falta de perspectiva de que daria resultado. A ideia é que essa união possa trazer resultado para os credores”, pontuou.

No grupo que esteve reunido, há uma clara presença de “temor” com relação as pessoas que estão conduzindo esses acordos. Sandro afirmou que Lenoir é o suposto comprador, o suposto arrendatário, mas que eles não possuem provas documentais disso. Está tudo em sigilo. “Estou colocando minha vida em risco. Fui ameaçado de morte. Deixo bem claro, se acontecer alguma coisa com a minha vida, são pessoas que estão envolvidas, Eleandro Beraldo e a mulher dele”, declarou.

Um dos credores que aceitou o acordo afirmou que pelo menos um terço das dívidas deixadas por Beraldo já foram renegociadas com Lenoir, no entanto, os valores só serão transmitidos quando 50% mais um dos credores aceitarem o acordo, para assim protocolar o processo na justiça.

Esse teria sido o “trato” feito entre Lenoir e o Fundo. O empresário comprou as áreas de terra que eram de Beraldo e foram capturadas pelo Fundo, assumindo esse ônus. Atualmente as terras estão sob posse de Lenoir, que arrendou para um terceiro, que está cultivando na propriedade. Esse arrendatário é identificado como José Cezar Sabo.

 

E os armazéns?

O antigo armazém da Caage em Claudia continua em operação, mas agora com outro nome. A estrutura de armazenagem agora pertence a Graziele Fiorese Sandri, que assumiu a estrutura após a Caage encerrar suas atividades.

Beraldo e Graziele faziam negócios, com compra e venda de grão desde 2014. Eram parceiros comerciais habituais. Por volta de 2017, quando as transações começaram a ser em valores expressivos, Graziele recebeu a recomendação dos seus advogados para fazer operações apenas com garantias determinadas. Graziela tinha contratos de soja verde com Eleandro. Antecipava o pagamento pelo produto antes da safra e no final do contrato pegava o grão.

Em meados de 2023, já haviam 4 operações com garantia firmadas entre Beraldo e Graziela que estavam sendo refeitas. A “garantia” dessas operações que estavam sendo roladas era justamente o Armazém da Caage.

A última “renegociada” foi em julho de 2023, referente a 103 mil sacas de soja. Em agosto de 2023, Beraldo procura Graziela e faz uma proposta: a dívida, que estava na casa de R$ 11 milhões, mais R$ 4 milhões em dinheiro, em troca do armazém. E foi assim que a Sandri e Sandri se tornou dona do armazém da Caage e o patrimônio deixou de estar na lista de bens perseguidos pelos credores. Ela comprou o armazém por R$ 15 milhões, que é o valor que está na avaliação da Recuperação Judicial.

O outro armazém, que fica em União do Sul, passou por situação similar, sendo a negociação feita com o Grupo Lodi. Outros credores, maiores e menores, conseguiram perseguir alguns bens de Beraldo antes do esquema estourar. No entanto, foram poucos.

 

Foi esquema pensado

Cunha e outros advogados presentes na reunião destacaram que esse o golpe não foi por acaso. Eles afirmaram que houve uma preparação e uma premeditação. “Foi uma formação de quadrilha. Se tivessem feito a quebra do sigilo fiscal a gente saberia exatamente onde foram parar esses grãos. Quem receptou esses grãos e tão criminoso quanto Beraldo”, comentou uma advogada.

A opinião foi endossada por Cunha e também por Fernando, outro advogado. Quanto a estratégia de ação planejada pelo escritório, os advogados de Brasília preferiram não detalhar, para “não dar munição ao adversário”.

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