Skip to content
Aproximação facial digital

Designer gráfico de Sinop reconstrói o rosto de homem que viveu há mais de 8.300 anos na América do Norte

Geral | as
Designer gráfico de Sinop reconstrói o rosto de homem que viveu há mais de 8.300 anos na América do Norte
? Foto: Foto: Reprodução

Mais de 8.300 anos após sua morte, o chamado Homem de Kennewick, considerado por muitos pesquisadores o esqueleto humano mais importante já encontrado na América do Norte, voltou ao centro das atenções com uma nova aproximação facial digital. O trabalho foi realizado pelo pesquisador e designer 3D brasileiro Cicero Moraes, especialista em reconstrução facial forense, com base em dados públicos, métodos científicos consolidados e ferramentas digitais de código aberto.

Cicero contou ao PAGE NOT FOUND que a proposta não foi “reinventar” o Homem de Kennewick, as aplicar com rigor metodológico técnicas já utilizadas em outros projetos seus, agora em um contexto didático e totalmente transparente.

Leia mais

“O processo que utilizei aqui é o mesmo que aplico em outros estudos de reconstrução facial forense. A diferença é mostrar que, mesmo usando apenas dados disponíveis publicamente, é possível chegar a um resultado tecnicamente consistente”, explicou.

A base da reconstrução foi um modelo tridimensional do crânio, escaneado em 3D e disponibilizado sob licença Creative Commons pelo pesquisador Nicamarvin Sevilla. O acesso aberto ao material permitiu que o crânio fosse escalonado com base em medidas osteométricas publicadas e integrado a referências anatômicas amplamente usadas na literatura científica. Embora o Homem de Kennewick Man já tenha sido alvo de reconstruções anteriores, realizadas nos anos 2000 e 2010, a nova aproximação dialoga com essas versões, mas incorpora refinamentos metodológicos e ferramentas digitais mais recentes, explicou o brasileiro.

Reconstrução do rosto do Homem de Kennewick — Foto: Divulgação/Cicero Moraes
Reconstrução do rosto do Homem de Kennewick — Foto: Divulgação/Cicero Moraes
 

Os restos mortais do Homem de Kennewick correspondem a um esqueleto quase completo, composto por cerca de 350 fragmentos que representam 143 elementos ósseos distintos. As análises indicam que se tratava de um homem destro, com idade estimada entre 35 e 45 anos, aproximadamente 1,73 m de altura e peso entre 70 e 75 kg. Sua história de vida ficou registrada nos ossos: fraturas nas costelas, uma fratura na escápula direita, uma pequena depressão no crânio e um ferimento grave causado por uma lança, cuja ponta de pedra permaneceu alojada no osso do quadril.

“É impressionante perceber que ele sobreviveu por anos a lesões que hoje consideraríamos graves. Isso sugere um indivíduo extremamente resiliente, acostumado a esforço físico contínuo e a condições ambientais difíceis”, declarou o brasileiro.

O esqueleto também apresenta exostoses severas nos canais auditivos, condição conhecida como “ouvido de surfista”, geralmente associada à exposição frequente à água fria. Além disso, o desgaste intenso dos dentes reduziu a altura facial ao longo da vida, um detalhe que influencia diretamente a aparência final do rosto reconstruído. Isótopos ósseos indicam uma dieta fortemente baseada em recursos marinhos e consumo de água proveniente de degelo glacial.

A causa exata da morte permanece desconhecida. Embora muitas das fraturas tenham ocorrido ainda na juventude e tenham cicatrizado, há indícios de que lesões no ombro aconteceram próximo ao momento da morte.

O Homem de Kennewick ou Ancestral Um é o nome atribuído aos restos esqueléticos de um homem pré-histórico paleoamericano encontrado em um leito do rio Columbia, em Kennewick (estado de Washington, EUA), em 28 de julho de 1996, por dois jovens universitários.

Polêmica indígena

A identificação fez com que grupos nativos exigissem a repatriação do corpo. Membros das nações indígenas afirmavam que aquele era um ancestral que deveria ser enterrado a partir de um ritual característico da sua origem.

 

Durante muito tempo, a narrativa dos cientistas foi a de que o homem não poderia estar ligado a nativos americanos vivos, por ser um esqueleto muito antigo. Mas, em 2015, um laboratório dinamarquês chegou a uma conclusão mais definitiva que as anteriores: “o Homem Kennewick está mais próximo dos nativos americanos modernos do que de qualquer outra população do mundo”.

Os restos mortais foram retirados do Museu Burke, em Seattle (EUA), em 17 de fevereiro de 2017 e já no dia seguinte foram enterrados com a presença de mais de 200 membros de grupos nativosamericanos do Platô de Columbia.

Foto Flagrante