Em dezembro de 2016 a prefeitura de Sinop mandou sua primeira carga de lixo para um aterro sanitário devidamente licenciado. A destinação correta dos resíduos, ainda que em um aterro localizado no município de Sorriso, interrompia uma sequência de 27 anos de contaminação ambiental.
Em 1989 a prefeitura de Sinop desapropriou uma área de 70 hectares, próximo a atual comunidade Fátima, com o objetivo de instalar o aterro municipal. Ao invés disso, o local foi transformado em um “lixão” – algo que, em tese cumpre a mesma função do aterro, como depósito do lixo urbano, mas sem todas as estruturas e medidas que garantem a redução dos impactos ambientais.
Ao longo de todos esses anos o Lixão recebeu diariamente todo o lixo doméstico e parte do lixo comercial recolhido em Sinop. Nos últimos meses, cerca de 100 toneladas de resíduos eram depositados por dia no Lixão somente pelos caminhões de coleta da prefeitura. Além disso, o espaço era ilegalmente utilizado pela população para se livrar de entulhos.
Nos últimos anos de sua operação, o Lixão foi um transtorno para Sinop. Na época da seca, o local era constantemente alvo de incêndios. Com muita matéria orgânica em decomposição, gases inflamáveis, como o metano, brotavam dos resíduos. Qualquer faísca gerava uma combustão. Com muita frequência, a fumaça tomava conta da cidade. Já na época das chuvas, o mau cheiro atingia principalmente as comunidades circunvizinhas. Havia problema com insetos e também com as aves atraídas pelo lixo. Isso porque o local ficava há cerca de 5km de distância do Aeroporto de Sinop, o que colocava em risco a aviação. Clandestinamente também haviam pessoas vivendo de catar lixo para reciclagem. Uma ONG de Sinop identificou que 37 pessoas trabalhavam no lixão de Sinop em 2016.
A situação crítica levou a justiça a intervir. Pelo menos 4 ações judiciais foram movidas nos últimos 6 anos de operação. O lixão foi fechado e reaberto por diversas vezes, até sua suspensão definitiva, em novembro de 2016.
Hoje, sexta-feira (3), dois anos e meio após ser fechado, o GC Notícias foi até o Lixão municipal. Sem conhecer a região, a primeira vista, é impossível saber que um dia houve montanhas de lixo por ali. A primeira diferença é percebida no nariz. Quando o lixão estava em atividade, era possível sentir o mau cheiro há quilômetros de distância. Agora, nenhum odor desagradável é percebido mesmo dentro da área.
Aliás, entrar no local não é uma tarefa das mais fáceis. A secretaria de Obras, pasta responsável pela gestão do lixão, bloqueou ainda em 2017 os principais acessos. O restante foi com a natureza.
Uma vegetação de médio porte hoje cobre quase todo o antigo lixão. A planta mais comum são as mamonas, mas também é possível encontrar com uma certa frequência frutíferas como o mamoeiro e trepadeiras com a bucha natural. A decomposição, a movimentação de terra e o crescimento da vegetação deixou muito pouco lixo a mostra. Poucas sucatas metálicas, algumas embalagens de vidro e entulhos de construção, logo da entrada, são mais facilmente encontrados.
Próximo às valas principais é possível perceber a existência de gás metano. Sem cheiro, porém tóxico, o gás e a provável existência de grandes bolsões de metano no subsolo, são um risco eminente.
Também é possível notar a presença de fauna, em especial aves. Nada de urubus ou garças. As espécies plumadas que agora habitam o lixão são outras.
Tecnicamente, pouco se sabe sobre o Lixão. Segundo a secretária de Meio Ambiente de Sinop, Ivete Mallmann, a prefeitura deve fazer ainda esse ano um levantamento técnico para apurar a situação. “O que fizemos foi ir até o local e constantar visualmente que a natureza está se recompondo. Precisamos de informações mais detalhadas para traçar um plano de recuperação”, explicou a secretária.
A recuperação ambiental da área do antigo lixão é uma das muitas determinações impostas pela justiça. O assunto é tratado em parceria com a secretaria de Obras. Segundo Daniel Brolese, secretário de Obras, as duas pastas se reuniram na última semana para discutir justamente o plano de recuperação para área do antigo lixão. “Por enquanto estamos no começo. É preciso fazer um levantamento ambiental para então saber o que precisa ser feito”, disse.
Enquanto a prefeitura não conclui seu plano de recuperação e começa coloca-lo em prática, a natureza, sem a intervenção do homem, vai dando conta de amenizar o impacto, pelo menos, para o próprio homem.
Confira as fotos do que um dia foi o lixão de Sinop.