Geral|as? Foto:Remídio com sua esposa e filhos | Foto: Divulgação
As 11h07 minutos dessa sexta-feira (1), o presidente da Câmara de Sinop, Remídio Kuntz, visualizou seu Whatsapp pela pela última vez. Ele estava em seu sítio, cuidando dos tanques onde produzia peixe. Cerca de 15 minutos depois, quando retornava para cidade dirigindo sua picape Fiat Strada, sofreu um acidente na BR-163, em Sinop, próximo ao Camping Clube, antes do primeiro alagado da Usina. Um motorista que passava pelo local foi prestar socorro, tirando o corpo de dentro do veículo que apresentava sinais de fogo. Ele gravou um vídeo e um áudio, dizendo que verificou os documentos e constatou que se tratava de Remídio Kuntz. Antes das 11h30, a notícia, com o vídeo e o áudio já havia se espalhado pelas redes sociais.
A morte despertou uma onda de comoção. “A dor de perder um amigo de tantos anos e um líder tão dedicado é imensurável. Remídio não era apenas uma figura pública, ele era a personificação do trabalho sério, da simplicidade e do compromisso verdadeiro com cada morador de Sinop. Sua ausência será sentida em cada conversa, em cada debate e em cada decisão que moldará nosso futuro. Mas seu legado, sua energia contagiante e seu exemplo de serviço público permanecerão vivos em cada um de nós. Remídio foi, acima de tudo, um grande trabalhador. Um homem de ação, que não media esforços para servir e que tratava a todos com o mesmo respeito e carinho, fosse no gabinete ou nas ruas”, declarou o deputado federal e ex-prefeito de Sinop, Juarez Costa.
O prefeito de Sinop, Roberto Dorner, ressaltou os laços e a história que compartilhava com Remídio. “Mais do que um grande político, perdi um amigo querido, alguém que sempre esteve presente e que dedicou sua vida ao desenvolvimento de Sinop. Remídio deixa um legado marcante. Hoje me despeço de um homem íntegro, cuja ausência será profundamente sentida por mim, por todos os amigos, familiares e por toda a nossa cidade”, enfatizou Dorner.
Edmundo Costa Marques, presidente da CDL Sinop, destacou a parceria e o comprometimento que Remídio tinha com a classe empresarial. “Era um amigo do comércio, parceiro em muitas ações, um homem de resultado e que sempre esteve atento ao desenvolvimento de Sinop”, pontuou.
Prefeitura e Câmara de Sinop decretaram luto oficial. O corpo do ex-presidente será velado na sede legislativa, ainda nesta sexta-feira. O sepultamento deve ocorrer no sábado.
Além do impacto da perda repentina de uma das figuras políticas mais importantes da cidade, a morte de Remídio reconfigura a Câmara municipal. Quem deve assumir a presidência da Casa de Leis é o primeiro vice-presidente Moisés Tavares, do PL. Remídio foi eleito e continuava filiado ao Republicanos. Agora essa cadeira deve ser ocupada pelo primeiro suplente, o ex-vereador e líder comunitário da região dos vilas, Celsinho do Sopão.
Vida e obra
Nascido em 19 de setembro de 1966, no distrito de Bandeirante, interior de São Miguel do Oeste (SC), Remídio chegou em Sinop em 1979, com 14 anos de idade. A família de migrantes sulistas vinha de Tacuru, no Mato Grosso do Sul, depositando esperanças de uma vida melhor no Norte de Mato Grosso. Werno Kuntz, pai de Remídio, era o bastião da família, trabalhando como empregado de empresas privadas para garantir o sustento dos 4 filhos.
Remídio começou a trabalhar cedo. Como quase todo menino de Sinop na década de 80, foi picolezeiro, engraxate e vendedor de peixes. Julita Duleba, presidente da Colônia de Pescadores Z-16, disse que a primeira profissão de Remídio foi a de pescador artesanal, que exercia junto com o pai.
Depois de anos vivendo da pesca nos rios do Norte de Mato Grosso, Remídio empreendeu. Montou o Posto de Molas São Cristóvão, às margens da BR-163, no bairro São Cristóvão. Em sua oficina se resolviam os problemas que as precárias estradas de Mato Grosso provocavam nos caminhões. O posto de molas funcionou por 18 anos. A medida que os negócios iam bem, Remídio investia na agropecuária. A lavoura acabou virando sua atividade principal.
No começo dos anos 2000, Remídio emergia como uma liderança política natural da sua comunidade. Foi eleito presidente do bairro São Cristóvão por duas vezes. No ano de 2004, rendeu apoio ao projeto de candidatura do apresentador de TV, Gilson de Oliveira. Com o apoio de Remídio, Gilson obteve 4.612 votos, sendo o vereador mais votado da história de Sinop até hoje. Seu enlace com a política aflorou depois do pleito. Em 2006 ele participou da construção do PP em Sinop, abrindo espaço na cena local para José Geraldo Riva, ex-deputado e uma das figuras mais influentes da política de Mato Grosso.
No ano de 2008 ele já estava grande demais para ser apenas cabo eleitoral. Lançou sua candidatura como “Remídio do São Cristóvão”. Fez 1.110 votos, que garantiram sua eleição.
Em 2011, no seu segundo ano do mandato de vereador, Remídio mostrou a todos que não era apenas mais um nome de passagem na cena local. Ele articulou uma eleição para presidência da Câmara de Sinop que fez este jornalista que lhes redige perder uma caixa de cerveja em uma aposta. Ninguém podia imaginar que em uma Câmara que tinha nomes como Mauro Garcia, Gilson de Oliveira, Ticola, Hedvaldo Costa, Sérgio Palmassola e Ticha, o novo presidente seria um vereador que até ontem era apenas presidente de bairro. Mas Remídio deu show de política e mostrou pela primeira vez que era perito em fazer alianças. Ele chamou os vereadores de oposição para compor e assim venceu a eleição da mesa diretora, surpreendendo inclusive o prefeito da época, Juarez Costa.
No seu último ano como presidente, em 2012, conduziu a aprovação de projetos polêmicos, como o aumento no número de vereadores e o reajuste salarial do legislativo. No pleito seguinte sucumbiu a “Maldição do presidente” e assim como os anteriores, não se reelegeu, ficando apenas na suplência, atrás da histriônica figura política que ajudou lançar: o Negão do Semáfaro, vereador mais votado naquele pleito.
Quando o vereador Fernando Brandão foi cassado em 2017 – o primeiro da história – Remídio volta ao legislativo municipal, ocupando sua cadeira. Ele já chega se candidatando à presidência da Câmara, vencendo a disputa. Antes de reassumir a vereança ele estava na Secretaria de Obras, sendo nomeado titular da pasta pela prefeita Rosana Martinelli. Ele deixa o executivo para voltar ao seu estado natural: a Câmara.
Um dos momentos mais marcantes de sua atuação foi a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a Usina Hidrelétrica de Sinop. A comissão apontou crimes ambientais, mortandade de milhares de peixes e outras irregularidades na supressão vegetal.
No pleito de 2020, Remídio outra vez foi atingido pela “Maldição da Presidência”. Disputou a eleição para vereador, mas não se elegeu. Quando o prefeito Roberto Dorner brigou com seu vice, Dalto Martini, a Secretaria de Obras ficou vaga. Remídio foi chamado para assumir a função, em setembro de 2021.
Depois de quase 4 anos performando bem como secretário de Obras, Remídio expurgou a “Maldição do Presidente”. Com 1.801 votos ele volta a vencer uma eleição para vereador em 2024. No seu retorno ao legislativo, já chega costurando uma aliança com a oposição, frustrando os planos de Dorner em eleger Dilmair Callegaro presidente da Câmara de Sinop. A “política matuta” de Remídio triunfou outra vez, com ele sendo eleito pela terceira vez chefe do legislativo municipal. Nessa sua última passagem pela Câmara, Remídio tratou de fortalecer o Poder Legislativo. Devolveu “regalias” aos vereadores, como diárias e auxílios passagem. Ele dizia que “o vereador tem que ter estrutura para trabalhar”. Sem alardes, tratou de um assunto sensível logo no começo da sua presidência. Em março de 2025 ele aumentou o número de vereadores, que passam dos atuais 15 para 19 na próxima eleição. As duas últimas alterações no “tamanho” do legislativo foram feitas por Remídio.
Para além da figura política, que ocupava a maior parte do seu tempo, Remídio se dedicava a família e a criação de peixes no seu sítio. Atualmente ele estava casado com Miria Santos, com quem se uniu em 2005 e teve 2 filhos. Remídio havia se casado duas vezes antes, tendo mais 5 filhos desses relacionamentos.