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Um homem chamado George Miguel João Pedro Floyd

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De repente ele estava caído no chão dizendo que não conseguia respirar depois de uma queda de seis andares de altura e com o pescoço comprimido. A solução foi calar-lhe com disparos de arma de fogo.

 

George Miguel João Pedro Floyd sempre teve um sonho. Poder destacar-se e, orgulhar a sua comunidade sempre foi sua aspiração. Morador no subúrbio da cidade agitada, imaginava um futuro. Poder dar uma vida digna para sua mãe que trabalhava de sol a sol como doméstica na casa de praia das socialites da capital, que, apesar das dificuldades de transporte e dores que lhe restava ao final do dia, tinha inspiração todos os dias que, cedinho se despertava para arrumar os meninos para a escola. Batalhadora como era, viúva de um marido morto as custas do álcool e sua consequente Cirrose, não deixava os filhos passar fome.

George ou Miguel como era chamado pela avó, a medida que crescia, se destacava por extremo desejo de mudar seu convívio. Trabalhou em uma oficina de carros como ajudante e, se dedicava muito. Chegou a ser promovido a mecânico, porém devido às circunstâncias diárias, precisou sair do emprego para dedicar-se ao cuidado dos irmãos e de suas convicções. Participa do movimento em prol da liberdade de crescimento intelectual das comunidades do País. A sua comunidade se destacava, pelo fato de manter dentro do convívio, espaço para o lazer, crescimento profissional com cursos práticos, atenção à saúde e religiosa. Uma verdadeira cidade. Devido ao seu ascendente potencial de oratória, o jovem adulto George se torna Presidente do bairro e, passa a aumentar ainda mais o poder de influência dos seus apoiadores. Torna-se conhecido como Pedro Floyd, atribuído pela origem do nome “a Pedra no sapato” dos opositores. Tinha uma fala áspera e pontual. Era o “Floyd” em seus discursos.

Ainda no início da vida adulta, entra para a faculdade jornalismo mas, por discordâncias ideológicas com os professores, decide evadir-se da Universidade ao segundo ano de estudos. Sua mãe acaba discordando da decisão do filho mas, o apoia pois, o desejo do jovem apresentava certas convicções acertadas.

Manhã nebulosa de outono na agitada cidade. Dia de discursos inflamados em prol da liberdade de expressão comunitária. O moradores se organizam para uma passeata pacífica pela avenida principal. Tudo parecia andar bem. A solicitação da liberação da avenida havia sido concedida, a polícia que era necessária para a contenção dos ânimos, já se posicionava. Em instantes a caminhada iniciou. Faixas de: “liberdade e igualdade para todos!”, “Pelo direito de expressão, credo, raça e gênero!” avançavam com o povo. Em instantes, um grupo de pessoas que passavam próximo, começa a insultar os manifestantes e uma discussão inicia. Pedro Floyd decide revidar com palavras de ordem e tenta apaziguar os ânimos. A troca de insultos intensifica e começa um confronto entre os grupos. Em um determinado momento um grupo saca uma arma e consegue afugentar os manifestantes. Floyd e outros participantes tentam fugir subindo as escadarias de um prédio que estava aberto naquele momento. São perseguidos até o sexto andar onde são acuados em uma sacada. Um dos perseguidores solicita a Floyd: “pule a sacada ou morre aqui mesmo!”. “por que o faria?”, pergunta o jovem negro. “Por que indivíduos escórias como você, o mundo precisa ficar livre!”. De repente, um estampido. Um tiro para o ar motivou o jovem Pedro a pular do prédio. A pedra rígida, cai na calçada do nobre edifício ainda com vida. Um desespero se forma. Os opositores se aproximam junto com a população em geral para verificar se o homem ainda respirava. Com voz embargada e respiração dificultosa: George clama: “não consigo respirar”, “por favor, tire…”, têm a sensação de como estivesse sendo estrangulado, sente-se sufocado. Aos poucos vai acalmando-se,com olhos lacrimejantes, um pouco de sangue formando no chão, porém, seguia lúcido. “Chamem uma ambulância” grita um expectador. “Não será necessário”, verbaliza um homem e, sacando a arma dispara um tiro na cabeça do jovem que agoniza. Aos poucos, Floyd emudece e, silencia definitivamente sua voz. Os opositores desaparecem rapidamente. Com medo de recidivas. A população que assistia, decidiu emudecer-se junto com o cadáver que esperava a polícia técnica e a remoção.

Alguns anos se passaram e ainda a grande comunidade, hoje, George Miguel, ainda lembra os grandes feitos de Pedro. Uma escola com o nome Pedro Floyd foi batizada e muitos Pedros, Georges, Migueis e Joãos surgiram a partir daquele dia. O desejo daquele homem ainda paira sobre aquele lugar. Os homens que tiraram a vida de Floyd, jamais foram julgados. Sua mãe, a senhora Mariele, inseriu-se no movimento de luta pela liberdade de expressão e, tornou-se uma grande líder. Morreu dias depois após a morte do filho. Ainda hoje, ressoa nas paredes das casas daquele lugar, o seu desejo por justiça.

Definitivamente, George Pedro não teve tempo de ser o cara Floyd que sempre desejou mas, conseguiu demonstrar que mesmo em seus últimos suspiros, com a respiração comprimida, ele conseguia em um esforço clamar: “vidas, sejam elas de diferentes raças, gêneros, pobres, femininas, de ideias divergentes, credos distintos, importam”. Importam muito.

*Este texto é uma crônica em forma de ficção.

 

*Julio César Marques de Aquino (Júlio Casé) é médico de Família e Comunidade pela SMS- Sinop/MT. Professor de medicina de pela UFMT campus Sinop. Autor do livro “Receitas para a vida” pela editora Oiticica. Contato: email: juliocasemed@gmail.com

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